Na pátria da Mentira, o endereço da Verdade!


 

RECOMENDO

Baseado no romance homônimo de Don DeLillo, “Cosmópolis”, de David Cronenberg, com Robert Pattinson (contra o qual alimentava um certo preconceito, confesso, por sua atuação – por mim ainda não sujeita a admiração – naquela a meu ver muito famigerada saga “Crepúsculo”), Juliette Binoche, Paul Giamatti, Samantha Morton, entre outros. Um investidor bem-sucedido percorre as ruas de Nova Iorque em sua limusine para cortar o cabelo. No percurso, sua vida sofre uma imensa reviravolta.

Cosmópolis : poster

O roteiro é muito bom. Destaque para um diálogo mantido entre o protagonista e sua “consultora de teorias” em meio a uma manifestação de rua na qual sua limusine é pichada por detratores do capitalismo (não faço aqui julgamento moral algum das palavras abaixo escritas):

“Você precisa entender que quanto mais visionária é a ideia, mais pessoas são deixadas para trás. Esse é o motivo do protesto. Visões de tecnologia e riqueza. A força do cibercapital que mandará as pessoas para a sarjeta e morte. Qual é a falha da racionalidade humana? Ela finge não ver o horror e a morte causados pelos seus esquemas. Isto é um protesto contra o futuro. Eles querem bloquear o futuro. Querem normalizá-lo, impedir que esmague o presente. O futuro é sempre uma totalidade, uma uniformidade. Somos todos altos e felizes nele. Por isso o futuro fracassa. Jamais pode ser o lugar cruel e feliz que queremos criar. Sabe o que os anarquistas dizem?

- O impulso da destruição é criativo.

- É também o lema do pensamento capitalista. Destruição forçada. Velhas indústrias precisam ser eliminadas. Novos mercados precisam ser abertos. E antigos mercados precisam ser reexplorados. Destruir o passado, fazer o futuro”.

Veja o trailer em http://youtu.be/kc0vvUB-q5Q?hd=1

Não sei se foi o filme em si, mas enquanto lhe assistia sobreveio-me um poderoso insight sobre uma história que estou escrevendo e que, quem sabe, algum dia virará livro. A ideia surgida foi tão perturbadora e chocante que tive medo de mim mesmo, e pergunto-me agora se acaso não estou mesmo ficando louco. Já escrevi qualquer coisa, num passado não tão remoto, sobre inocência e altivos sentimentos, mas agora escrevo sobre as trevas da sociedade humana, a marginalidade e a abjeção completas descritas num drama pungente e visceral a que tento dar corpo, mas quanto mais penso nele mais dele tenho medo. Afinal, escrever sobre algo é envolver-se com esse algo, procurar entender aflições, fantasmas, agruras, taras e credos imbrincados na natureza humana e contra os quais a Humanidade emprega, a muito custo, toda a Civilização para esmagá-los, por ora sem sucesso. Esses caminhos obscuros, escamoteados, nefastos, medrados em meio aos esgotos das cidades albergam tudo aquilo que a Civilização não conseguiu extinguir, apesar de todos os milênios de esforços infelizmente em vão. É um desafio a que me lanço, sem qualquer previsão de sucesso.  



Escrito por Rodrigo às 02h01
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




RECOMENDO

Caro e fiel leitor, como já deves ter percebido estou fechado pra balanço. Esse período em que me calo é uma quarentena que impus a mim mesmo como uma tentativa de desintoxicar-me. A verdade é que, se já antes eu não escrevia nada de lá muito relevante, nestes últimos anos, então, não tive condições de escrever nada, porque meu destino tomou rumos tão inescrutáveis que precisava compreender certos eventos, especialmente aqueles nos quais os limites da indignidade são superados.

Na busca pela compreensão de tão sombrios aspectos da vida humana, tenho procurado observar o Mundo. Às vezes penso entendê-lo cada vez menos, apesar dos meus esforços em sentido contrário.

Incêndios : foto

Essas palavras são necessárias pra contextualizar o que segue. Recomendarei, neste post, dois filmes viscerais, impactantes, ferozmente chocantes, que retratam, com uma crueldade particularmente assombrosa, seja pelo horror das sagas, seja pela estética vibrante, quão frágil é a natureza humana diante do insuportável peso que pode assumir o destino. Assisti-lhes com o espírito aberto, como deve fazer qualquer um que se coloque diante de obras desse tipo, perturbadoras e dilacerantes, e se os recomendo é porque me abalaram a ponto de crer que tiveram uma importância que não consigo aferir de todo nas minhas buscas por respostas aos dilemas a que me propus. Na verdade, e eis tudo, creio que nenhuma dessas obras, como ademais nenhuma outra que já tenha admirado, me trouxe jamais qualquer resposta, mas apenas novas perguntas. E provavelmente seja esse o caráter desconcertante do fugaz e tortuoso caminhar humano: encontrar pelo caminho mais e mais perguntas, mas jamais se deparar com respostas satisfatórias.

Old Boy : foto

Essa peregrinação de dor que tenho percorrido sugere-me que o segredo está em encontrar a paz de espírito na convivência tão harmoniosa quanto possível com as perguntas mais aflitivas sem esperar por respostas que nos aliviem. Tanta incompreensão tem me levado a acreditar que, de fato, talvez ela, precisamente a incompreensão, seja tão fatídica e inescapável que mais feliz é o homem que melhor aceita o fato de não conseguir compreender o Mundo do que aquele que, em sua ânsia de entendê-lo, enlouquece em busca da solução dos maiores enigmas.

Incêndios : foto

Bom, o primeiro filme que recomendarei neste post é um sul-coreano que descobri há pouco tempo. Chama-se “Old Boy”, de Park Chan-Wook.

Old Boy : foto

Este filme, vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2004, de uma violência espetacular, começa mostrando a aflição de um indivíduo aparentemente bêbado preso na sala de espera de uma delegacia. Depois de jogar-se durante horas contra as paredes, contra o chão e contra os policiais em tentativas enlouquecidas de sair de lá, um amigo seu chega para soltá-lo, ao que tudo indica depois de pagar a devida fiança. Na rua, liga para a esposa de um telefone público e subitamente desaparece, indo parar numa cela com uma cama, um banheiro e uma televisão, onde ficará por longos quinze anos. Verá formigas brotando de suas veias, espancará com os punhos as paredes do lugar, ver-se-á dominar, diariamente, por gases soníferos lançados de tubulações escamoteadas pelas paredes instransponíveis do lugar. Passados esses quinze anos intermináveis, o homem é solto no terraço de um prédio, sem entender porquê. Finalmente, descobrirá ter apenas cinco dias para descobrir o motivo de ter sido mantido em cárcere privado por tanto tempo e vingar-se de seus algozes.

Old Boy : foto

O protagonista, vivido por Choi Min-Sik, tem uma atuação ferozmente intensa, e a estética do filme é extraordinária. O diretor fez tomadas incríveis. Há cenas tão brutais que por vezes o filme fica intragável, como quando o homem, num restaurante japonês, abocanha um polvo vivo enquanto os tentáculos do bicho movem-se desesperadamente pela sua cara. Mas a história vale a pena. O final é particularmente perturbador.

 

O segundo filme que recomendarei é provavelmente o mais chocante que já vi. A temática é similar à do filme anterior, mas se o filme coreano ganha em violência, este filme canadense indicado ao Oscar® de melhor filme estrangeiro ganha em percuciência. “Incêndios”, de Denis Villeneuve, inicia com dois irmãos gêmeos sentados diante de um notário ouvindo a leitura do testamento de sua recém-falecida mãe. Ouvem que ela quer ser enterrada nua, de costas e sem lápide alguma, e incumbe os filhos de entregar duas cartas: uma a seu pai (que acreditavam encontrar-se morto), e outra a seu irmão (cuja existência só conheceram a partir desse testamento). Para encontrar o pai e o irmão até então ignorado, eles começam uma peregrinação arrebatadora por uma desconhecida e devastadora história de sua mãe na Palestina.

Incêndios : poster

Assisti a este segundo filme há algum tempo, e lembro-me bem que ao final não sabia o que pensar nem o que sentir. Só sei que nunca mais fui o mesmo.

Incêndios : foto

Duas obras para quem tem estômago, sem dúvida, mas ambas com um poder incrível para estremecer nossos corações.

 

P.S.: recebi, nos últimos tempos, alguns pedidos de fiéis e muito generosos leitores para escrever sobre o nosso tempo, e sobre os eventos que nos cercam e que desafiam nossas mentes modestas e no mais das vezes superficiais para entender a complexidade da vida e do Mundo. Agradeço esses gestos de confiança e fidúcia, mas minhas opiniões têm vivido tão constante e profunda mudança que nem sei mais no que pensar. Na medida do possível retomarei meus textos, por ora, ao menos penso, com mais ênfase na arte, que decididamente é o que nos resta em tempos de total incompreensão. 

 



Escrito por Rodrigo às 02h34
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




RECOMENDO:

Artigo publicado no jornal El País, com análise percuciente sobre a Globalização e os medos provenientes da interdependência por ela gerada.

http://elpais.com/elpais/2012/07/16/opinion/1342452932_335247.html



Escrito por Rodrigo às 22h43
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




MACHUCA

Fogem-me as palavras, mas escrevo. Mais uma vez, choro ao término de um filme. Que tristeza! Que desalento! E mais uma vez, a certeza de que a vida humana é tão rica, e de que somos, ao mesmo tempo, tão miseráveis. Quantas perdas inestimáveis a vida nos traz? Quantas lágrimas faz brotar de nossos olhos assim, de forma tão simples, sem nem fazer força? Quantas vezes nos parte o coração com sua avareza sem limite? Nas “Intermitências da Morte”, Saramago, numa de suas frases tão iluminadas, escreveu: “É assim a vida, vai dando com uma mão até que chega o dia em que tira tudo com a outra”.

 

Pena. Muita pena. É isso o que hoje sinto. E não só hoje, é isso o que venho sentindo há algum tempo, fruto de uma desilusão e de uma saudade. Desilusão por saber, como canta o musical, que “I had a dream my life would be / so different from this hell I’m living / So different now from what it seemed / Now life has killed the dream I dreamed”. Saudade de tempos em que a pena era distante, muito provavelmente pela inocência já perdida.

Este estado em que me encontro, tão perene, tão insistente, leva-me a uma incompreensão insuportável. Não entendo mais. Que mundo é esse? Que Humanidade é essa? IPhones, IPads, Facebook, enquanto há gente morrendo de fome do outro lado da rua. “O horror, o horror”, escreveu Konrad. Ele vive aqui, pertinho de nós, e nada fazemos. Pertinho de mim, e o que faço? Oras, reduzo-me à figura pedante do que escreve... tolices! Barbaridades mostradas no Google com toda a sordidez de detalhes, ao lado das fotos hackeadas de atrizes nuas. Indignados perdidos ocupam Wall Street sem reivindicações claras, enquanto na Síria oito mil pessoas são mortas a machadadas. Os gregos votam em neonazistas para sair de uma crise sem tamanho, enquanto um maníaco mata a queima-roupa quase oitenta jovens indefesos numa ilha da Noruega. O papa felicita Hollande por sua eleição pregando que “respeite a vida”, em alusão à sua posição em favor da eutanásia, enquanto se encontra o cadáver de um mafioso nas tumbas da Basílica de Santo Apolinário, destinada a guarnecer os ataúdes de cardeais e Sumos Pontífices. Quanto mais leio, quanto mais me dou conta, mais fico enojado, mais emudeço, menos compreendo.

Por isso dei um tempo. Parei de escrever. Nesse mundo insano, escreve-se demais. Há bobagens demais. Há desonra demais. Imbecilidade demais. Esse texto provavelmente seja só mais uma.

Hoje estou triste. Essa tristeza que me abala faz-me lembrar de uma sextina de Camões, que transcrevo abaixo pra fechar com chave de ouro esse lamento:

 

Foge-me, pouco a pouco, a curta vida,
Se por caso é verdade que inda vivo;
Vai-se-me o breve tempo de ante os olhos;
Choro pelo passado; e, enquanto falo,
Se me passam os dias passo a passo.
Vai-se-me, enfim, a idade e fica a pena.

Que maneira tão áspera de pena!
Pois nunca uma hora viu tão longa vida
Em que possa do mal mover-se um passo.
Que mais me monta ser morto que vivo?
Para que choro? Enfim, para que falo?
Se lograr-me não pude de meus olhos?

Ó fermosos, gentis e claros olhos,
Cuja ausência me move a tanta pena
Quanta se não compreende enquanto falo!
Se, no fim de tão longa e curta vida,
De vós me inda inflamasse o raio vivo,
Por bem teria tudo quanto passo.

Mas bem sei que primeiro o extremo passo
Me há de vir a cerrar os tristes olhos,
Que Amor me mostre aqueles por que vivo.
Testemunhas serão a tinta e pena,
Que escreverão de tão molesta vida
O menos que passei, e o mais que falo.

Oh! que não sei que escrevo, nem que falo!
Que se de um pensamento noutro passo,
Vejo tão triste gênero de vida
Que, se lhe não valerem tanto os olhos,
Não posso imaginar qual seja a pena
Que traslade esta pena com que vivo.

Na alma tenho um contínuo fogo vivo,
Que, se não respirasse no que falo,
Estaria já feita cinza a pena;
Mas, sobre a maior dor que sofro e passo,
Me temperam as lágrimas dos olhos;
Com que, fugindo, não se acaba a vida.

Morrendo estou na vida, e em morte vivo;
Vejo sem olhos, e sem língua falo;
E juntamente passo glória e pena.



Escrito por Rodrigo às 01h42
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




E OS ANOS PASSAM...

 

Na sala de casa, à noite. Uma mesinha de centro, alguns sofás a circundando, um tapete enorme a ocupar quase todo o chão, as paredes adornadas por vários quadros pequenos e fotografias de família. Na cadeira de balanço, perto da janela, iluminada pelo abajur e pela luz do luar que invadia o cômodo languidamente, uma mulher bordava. Entra um menino.

MÃE: Por onde andavas, meu filho?

MENINO: Brincando.

 

*

 

Na sala de casa, à noite. Uma mesinha de centro, alguns sofás a circundando, um tapete enorme a ocupar quase todo o chão, as paredes adornadas por vários quadros pequenos e fotografias de família. Na cadeira de balanço, perto da janela, iluminada pelo abajur e pela luz do luar que invadia o cômodo languidamente, uma mulher bordava. Entra um rapaz.

MÃE: Por onde andavas, meu filho?

RAPAZ: Bebendo.

 

*

 

Na sala de casa, à noite. Uma mesinha de centro, alguns sofás a circundando, um tapete enorme a ocupar quase todo o chão, as paredes adornadas por vários quadros pequenos e fotografias de família. Na cadeira de balanço, perto da janela, iluminada pelo abajur e pela luz do luar que invadia o cômodo languidamente, uma mulher bordava. Entra um homem.

MÃE: Por onde andavas, meu filho?

HOMEM: Trabalhando.

 

*

 

Na sala de casa, à noite. Uma mesinha de centro, alguns sofás a circundando, um tapete enorme a ocupar quase todo o chão, as paredes adornadas por vários quadros pequenos e fotografias de família. Na cadeira de balanço, perto da janela, iluminada pelo abajur e pela luz do luar que invadia o cômodo languidamente, uma mulher bordava. Entra um velho.

MÃE: Por onde andavas, meu filho?

VELHO: Vivendo. 



Escrito por Rodrigo às 02h56
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




MEU DESAGRAVO AO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

União Estável Gay

Um passo rumo à Luz

 

Instigado por um dileto amigo, desfaço, ao menos por ora, o silêncio em que me retive nestes últimos meses para ater-me em algo que merece ser considerado.

Viste, caríssimo leitor, todo o asco que me revoltou ao ler aquele estapafúrdio acórdão de nossa “egrégia” Suprema Corte que jogou pá de cal na discussão sobre a aplicação da anistia aos militares que, entre 1964 e 1985, fizeram o que fizeram.

Também acompanhaste minha decepção – em tempos nos quais ainda me dava a tal luxo, decepcionar-me com coisa que tal – com a atuação irresponsável do STF na Operação Satiagraha, em que expôs, às escâncaras, as pústulas da desigualdade com que trata os jurisdicionados, dividindo-os em banqueiros (com direito a ligação do Presidente do STF a TRF exigindo informações, e concessão de habeas corpus em quarenta e oito horas) e pobres mortais que apodrecem (literalmente) nos presídios insalubres desta Republiqueta de Bananas por absoluta falta de acesso à Justiça (uns mais perspicazes, aliás, diriam, ao contrário, que eles têm acesso à Justiça até demais, encarnado nos cassetetes dos polícias e nas grades das cadeias que perpassam seu triste caminhar na terra... ou seja, de Judiciário estão é saturados).

Apesar disso, e sem me esquecer dessas vergonhosas atuações, eis que me surpreendo com o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade – ADI nº 4277, proposta pelo Procurador-Geral da República, e da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental – ADPF nº 132, impetrada pelo Governador do Estado do Rio de Janeiro, em que o STF reconheceu, por unanimidade, a união estável entre pessoas do mesmo sexo, conferindo interpretação conforme a Constituição Federal ao art. 1723 do Código Civil para extrair-lhe qualquer discriminação sexual no reconhecimento de uma união estável como entidade familiar.

Caro leitor.

Sei que o assunto é candente, envolve crenças e opiniões fortes. Mas vamos logo ao que interessa.

A civilização tem dez mil anos. Já fomos Australopitecus, Homo habilis, Homo erectus, neandertais... vivemos milênios na Idade da Pedra. Custamos a sair da caverna platônica. A luz era-nos por demais ofuscante.

Nas primeiras cidades-estados, erguidas pesarosamente por escravos às margens de rios de água barrenta, os deuses eram cruéis e tinham feições humanas: eram os faraós.

A brutalidade era imensa. Os homens, do dia para a noite, eram esmagados como moscas. Não havia Poderes, não havia juízes. A lei, quando existiu, era uma só: “olho por olho, dente por dente”.

Essas civilizações, baseadas na crueldade e na desigualdade, caíram todas, umas após as outras. Caldeia, Egito, Babilônia, Grécia, Roma... Delas restaram a Esfinge, o Coliseu e as sepulturas (pirâmides).

Não sejamos injustos. Legaram-nos, também, as leis dos homens, a Democracia, a República... a Filosofia!

O que veio depois? Ele, Cristo.

Vem da lógica o raciocínio de que toda evolução parte do pior e vai para o melhor.

Ledo engano.

A evolução não é nada além disso: uma mera alteração. Uma mudança.

É o corolário do tempo, essa coisa indomável. É a marcha.

Há vezes em que os homens marcham para trás. Olham para o passado com uma nostalgia insuportável, visitam os cemitérios cheios de compaixão, adoram as lápides e rejeitam, com todo o fervor, o futuro.

Assim foi na Idade Média.

De Roma, da Grécia, do Egito, da Caldeia, sobrou apenas isto: um cadáver!

Fomos todos, por isso, a um sepulcro: voltamos à caverna. Retornamos à Idade da Pedra.

Foram mil anos de trevas! Mil anos, caro leitor, de uma marcha ignóbil comandada por adoradores recalcados de um corpo insepulto.

Nem faraós, nem reis, nem pretores: eram, agora, os padres.

E o que nos fizeram?

Cegaram-nos, com todas as suas forças. Subjugaram-nos, tornamo-nos cordeiros. Conspurcaram-nos, criaram o “pecado”. Desmembraram-nos, eis a sua Inquisição.

Eles tentaram. O sol, porém, não morreu.

E Galileu ousou falar.

Começou a ruir, assim, apenas com a luz, o Império da Sombra.

De repente, o homem decidiu abrir os olhos. Enxergou o futuro.

A partir de então, caro leitor, a Humanidade tem protagonizado algo extraordinário. É uma luta atroz e incansável, uma marcha dolorosa e pungente, uma ascensão lenta e arfante.

É a conquista da Luz!

Por isso que dói tanto. A chama arde. Não se deixa prender por nossas frágeis mãozinhas.

Cada passo rumo à luz, caro leitor, é uma dor e uma vitória.

O que nos impede? Ela, a Sombra. Não te engana: ela é sedutora. Seu perfume? A ignorância. Sua vagina? O ódio. Seu útero? O horror.

Muitos homens deixam-se encantar pelos assobios dessas sereias, e afogam-se no ingente Mar da Estupidez.

A um homem, é mais fácil enterrar-se do que voar.

Alguns, porém, por uma razão ou por outra, resistem.

Uma vontade, uma força, uma paixão avassaladora acende em sua alma e não a deixa mais em paz.

É a vontade de Céu!

Soltam as amarras, desprendem-se da pequenez, enfrentam os medos, espezinham os vermes.

Quando um homem é tomado pela Luz, não há Sombra que possa.

Vieram Da Vinci, Newton, Montesquieu, Voltaire, Rousseau... veio a França!

Depois de mil anos de vil jugo, os cidadãos sublevaram-se, pegaram em armas, marcharam, marcharam, tanto marcharam que derramaram sobre a terra o sangue impuro dos tiranos, gerações inteiras de Drácons e Herodes tombadas pela indignação dos miseráveis.

Nesse momento, a luz virou brasa e queimou, impiedosamente, os rastros da Infâmia.

Ela, a Infâmia, porém, tem seus truques. Um deles é sua cloaca. Gigantesca, resguarda seus ovos em entranhas putrefatas onde a luz não chega.

Um acaso, e tudo põe-se a perder.

Um inverno. Ele, o frio, e Napoleão perde a batalha.

Vem a Restauração. Esfacela-se a Europa entre suas vãs dinastias.

Ah, mas há isto. Uma coisa, caro leitor, há uma coisa que essas forças malignas, nascidas das sentinas do Mundo, não conseguem mais nos tirar: a Liberdade!

Começou, em 1789, uma luta incansável. Os humanos, tocados pelo fogo, acordaram de seu sono. E as Infâmias todas, uma a uma, devagar, gradual e ruidosamente, vêm caindo desde então. O feudalismo. O colonialismo. A escravidão. O nazifascismo.

E a Civilização vai, aos poucos, tomando consciência de si mesma.

Esta força, caro leitor, é invencível.

Tomar-nos-á a todos, sem exceção.

Não haverá totens, tabus, nem baratas. Dessa cruenta batalha, à Infâmia não sobrará pedra sobre pedra.

É a marcha inexorável do Progresso!

Às vezes acontece. Há dias em que testemunhamos, com esses olhos que um dia a terra nos haverá de comer, fatos incríveis!

Homens e mulheres que, com suas mãozinhas, apontando para a Luz!

Mostram-na assim, num aceno, num gesto que, de tão extraordinário, é seguido por todos os demais, quer queiram, quer não.

Ninguém consegue ficar indiferente a ela, a Luz. É forte demais para ser ignorada.

É aí, caro leitor! Sim, é precisamente aí que conhecemos, irremediavelmente, a mais íntima natureza de nosso caráter.



Escrito por Rodrigo às 14h55
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Nesses momentos gloriosos, há os que se cegam. Ao sujeitar suas frágeis e míopes vistas à vontade dos raios, os desgraçados são violentados pelas Sombras de que sempre beberam. Seu entendimento limitado aferra-se de tal maneira à conservação do passado, às formas mortas, às lembranças esquecidas, aos pré-conceitos nefastos repentinamente varridos da face da terra que chegam a estrebuchar. São essas criaturas leprosas, cadavéricas, imundas, sujas das seivas fúnebres do Aqueronte que erguem, embalde, seus vis punhos ao furor acachapante da Civilização.

Outros, porém, caro leitor, ao vislumbrarem-Na, a Luz, sorriem! Entregam-Lhe comovidos seus corações cheios de ternura, e ajoelham-se a Ela em deferência a pedir “Que posso fazer por Ti?” Ao ouvirem o suave “Honrem-me”, esses homens levantam-se e, com a certeza de estarem diante da Glória, correm, esbravejam, atiram-se enlouquecidos sobre a sujeira do Mundo, e não descansam enquanto a não extirpam de seu horizonte.

É só isso, esse embate, caro leitor, que move o Mundo.

Afinal, por que escrevo todas essas palavras?

Por uma razão muito simples: devo um desagravo ao STF.

Ao anunciar ao povo tupiniquim, rara amostra ainda viva da matéria amorfa da qual a Humanidade provém, que os homens podem amar quem bem entenderem; ao declarar aos quatro ventos que o coração humano está, e sempre estará, além de qualquer entendimento; ao proclamar, para todo o sempre, que nem todos os preconceitos do Mundo amalgamados na suprema ignorância de um só povo conseguem derrubar, com sua matriz tenebrosa, o mais evidente e elementar direito de um ser humano, amar; então, meu caro e bom leitor, testemunhamos, com esses mesmos olhos que temos na cara e que um dia a terra haverá de nos comer, um dos raros momentos em que a Civilização bradou para todo o Mundo ouvir.

Viu-se, nessa decisão, em todo o seu esplendor, uma amostra da Glória!

De que mais somos capazes? Só o tempo dirá.

Mas, como? As Sombras movem-se. Os vermes estão irados. Os ratos saíram da toca. Podemos ouvir seus gritos.

Não nos alarmemos. Os cadáveres morrerão. Seu dia chegará.

E quem além de Victor Hugo poderia resumir tudo de maneira tão graciosa? Peço licença aos Céus para transcrever o seguinte trecho da obra magnífica “Os Miseráveis”, em que ele fala justamente dela, a Marcha Inexorável do Progresso:

“O desenvolvimento intelectual e moral não é menos indispensável que o melhoramento material. Saber é um viático; pensar é primeira necessidade; a verdade é alimento assim como o trigo. A razão, em jejum de ciência e sabedoria, definha. Lamentemos, tanto quanto pelos estômagos, pelos espíritos que não se alimentam. Se há alguma coisa mais pungente do que um corpo agonizante pela falta de pão, é uma alma que morre pela falta de luz.

O progresso todo pende para o lado da solução. Um dia ficaremos estupefatos. À medida que o gênero humano se elevar, as camadas profundas naturalmente sairão da zona de desgraça. O fim da miséria ocorrerá por meio de uma simples elevação de nível.

Dessa abençoada solução seria um erro duvidar.

O passado, de fato, tem muita força no momento em que estamos. Ele se recupera. Esse rejuvenescimento de um cadáver é espantoso. Ei-lo que anda e se chega. Parece vencedor; esse morto é um conquistador. Chega com sua legião, as superstições, com sua espada, o despotismo, com sua bandeira, a ignorância; há pouco tempo ganhou dez batalhas. Avança, ameaça, ri, está diante de nossas portas. Quanto a nós, não nos desesperemos. Vendamos o campo onde Aníbal se instala.

Nós, que acreditamos, o que podemos temer?

Não há retrocessos de ideias bem como não há retrocessos de rios.

Mas, que aqueles que não desejam um futuro pensem bem nisso. Dizendo não ao progresso, não é o futuro que eles condenam, mas a si mesmos. Contraem uma doença sombria, inoculam-se o passado. Só há uma maneira de recusar o Amanhã, morrer.

Ora, morte nenhuma, a do corpo, o mais tarde possível, a da alma, jamais, é o que queremos.

Sim, o enigma dirá sua palavra, a esfinge falará, o problema será resolvido. Sim, o povo esboçado pelo Século XVIII será construído pelo século XIX. Idiota de quem duvidar! A eclosão futura, a eclosão de bem-estar universal que se aproxima é um fenômeno divinamente fatal.

Imensos impulsos de conjunto regem os fatos humanos e levam-nos, todos, após um certo tempo, ao estado lógico, ou seja, ao equilíbrio, ou seja, à eqüidade. Uma força composta de terra e de céu resulta da humanidade e a governa; essa força é uma realidade de milagres; soluções maravilhosas não lhe são mais difíceis do que peripécias extraordinárias. Ajudada pela ciência que vem de um homem e por um acontecimento que vem de outro, ela pouco se espanta com as contradições na colocação dos problemas, que ao povo parecem impossibilidades. Não é menos hábil em fazer brotar uma solução pela aproximação de idéias que um ensinamento pela aproximação de fatos, e pode-se esperar tudo por parte desse misterioso poder do progresso que, um belo dia, confronta o Oriente e o Ocidente no fundo de um sepulcro e faz Bonaparte dialogar com os imames no interior da grande pirâmide.

Nessa espera, que não haja descanso, nem hesitação, nem pausas na grandiosa marcha avante dos espíritos. A filosofia social é essencialmente a ciência e a paz. Tem como meta, e deve ter como resultado, dissolver a cólera por meio do estudo dos antagonismos. Ela examina, perscruta, analisa; depois, recompõe. Procede pela via da redução, eliminando totalmente o ódio.

Que uma sociedade se perca ao vento que se enfurece sobre os homens, isso já foi visto mais de uma vez; a história é repleta de naufrágios de povos e de impérios; costumes, leis, religiões, um belo dia, esse desconhecido, o furacão, passa e leva tudo consigo. As civilizações da Índia, da Caldéia, da Pérsia, da Síria, do Egito, desapareceram uma após a outra. Por quê? Nós o ignoramos. Quais são as causas desses desastres? Não as conhecemos. Essas sociedades poderiam ter sido salvas? Tiveram culpa? Ter-se-iam obstinado em algum vício fatal que fez sua perdição? Que quantidade de suicídio existe nessas mortes terríveis de nações e de raças? Perguntas sem resposta. A sombra cobre as civilizações condenadas; elas faziam água, pois afundaram. Não temos nada mais a dizer; e é com uma espécie de pavor que vemos desaparecer, no fundo desse mar que chamamos de passado, por trás dessas ondas colossais, os séculos, esses imensos navios, Babilônia, Nínive, Tarso, Tebas, Roma, sob o sopro medonho que sai de todas as bocas das trevas. Mas, o que lá eram trevas, aqui é claridade. Ignoramos as doenças das civilizações antigas, mas conhecemos as enfermidades da nossa. Temos, por toda parte sobre ela, o direito à luz; contemplamos suas belezas e colocamos a nu suas deformidades. Onde ela tem um mal, sondamos; e, uma vez constatado o sofrimento, o estudo da causa conduz à descoberta do remédio. Nossa civilização, obra de vinte séculos, é ao mesmo tempo monstro e prodígio dessa obra; vale a pena ser salva. E ela o será. Consolá-la já é o bastante; iluminá-la, é ainda muito mais. Todos os trabalhos da filosofia social moderna devem convergir para essa meta. O pensador de hoje tem um grande dever, auscultar a civilização.

Repetimos, essa auscultação é encorajadora; e é por essa insistência no encorajamento que queremos acabar estas poucas páginas, entreato austero de um drama doloroso. Sob a mortalidade social sente-se a imortalidade humana. Por haver aqui e ali essas chagas, as crateras, e essas impigens, as solfataras, por haver um vulcão que supura e lança seu pus, nem por isso o globo vai morrer. Doenças do povo não matam o homem.

No entanto, quem quer que siga a clínica social meneia a cabeça por instantes. Os mais fortes, os mais ternos, os mais lógicos têm suas horas de desânimo.

O futuro chegará? Parece que quase podemos nos fazer essa pergunta quando vemos tanto dessa sombra terrível. Melancólico, face a face com os egoístas e os miseráveis. Entre os egoístas, os preconceitos, as trevas da educação rica, o crescente apetite para o imbriamento, um atordoamento de prosperidade que ensurdece, o receio de sofrer que, em alguns, vai até a aversão pelos sofredores, uma insatisfação implacável, o eu tão empertigado que fecha a alma; entre os miseráveis, a cobiça, a inveja, o ódio de ver os outros felizes, os profundos impulsos da besta humana para a saciedade, os corações cheios de névoa, a tristeza, a necessidade, a fatalidade, a ignorância impura e simples.

Deve-se continuar erguendo os olhos para o céu? O ponto luminoso que ali se vê é daqueles que se apagam? O ideal é medonho ao ver-se assim perdido nas profundezas, pequeno, isolado, imperceptível, brilhante, mas rodeado de todas essas grandes e negras ameaças monstruosamente amontoadas à sua volta; no entanto, não está em maior perigo do que uma estrela nas goelas das nuvens” (VICTOR HUGO, em “Os Miseráveis”. Tradução de Regina Célia de Oliveira. São Paulo: Martin Claret, 2007, Vol. 2, pp. 178-181).

 



Escrito por Rodrigo às 14h54
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




SAUDAÇÕES À HUMANIDADE

OEA presta um tributo aos homens

A Humilhação do Brasil, nossa Pátria Mãe Gentil

Escancara-se ao Mundo a verdadeira natureza dos nossos STF e PGR

Finalmente, as boas novas! Acordo de longa mudez para cantar alvíssaras.

É que o Brasil foi posto em seu devido lugar.

A Corte Interamericana de Direitos Humanos, da OEA – Organização dos Estados Americanos, condenou o Estado brasileiro pela barbaridade perpetrada no famoso caso da “Guerrilha do Araguaia”, resolvido com a execução e desaparecimento, pura e simplesmente, de setenta pessoas.

Leia a notícia em:

http://www1.folha.uol.com.br/poder/845783-corte-interamericana-condena-brasil-por-desaparecidos-no-araguaia.shtml

Como o Brasil não se mexeu durante todo esse período (desde 1974) para investigar e punir os perpetradores deste CRIME CONTRA A HUMANIDADE (pois, caro leitor, é exatamente disso que se trata), a Humanidade, maculada (uma vez mais) pela nossa Pátria Mãe Gentil, apontou-lhe o dedo em riste por meio de uma corte internacional que atua na defesa dos Direitos Humanos.

Esta Corte, que está anos-luz acima e à frente de nosso combalido Supremo Tribunal Federal (quem, trago à lembrança, meses atrás se posicionou em sentido diametralmente oposto ao agora assumido pelas Américas), decidiu, com todas as letras, para quem quiser ler, numa decisão que “constitui, per se, uma forma de reparação”, em suma, que, a uma, a Lei brasileira da Anistia (Lei 6.683/79) é uma aberração jurídica; a duas, o Estado brasileiro é irremediavelmente responsável pela produção do resultado ocorrido, qual seja, o desaparecimento forçado das pessoas que alusivamente participavam da guerrilha; a três, que o Estado deverá reparar o dano que causou (não integralmente, pois não há reparo integral de dano de tamanha monta), indenizando os familiares das vítimas e dando-lhes todo o suporte médico e psicoterapêutico necessário à superação da dor; a quatro, o Estado brasileiro deverá conduzir eficazmente a jurisdição penal no presente caso, punindo os culpados; a cinco, o Estado brasileiro deverá empregar todos os esforços necessários para localizar os restos mortais das vítimas e, na medida do possível, entregá-los aos seus familiares; a seis, o Estado brasileiro deverá realizar um ATO PÚBLICO DE RECONHECIMENTO DE RESPONSABILIDADE INTERNACIONAL pelos feitos criminosos postos a julgamento; a sete, o Estado brasileiro deverá meter toda a soldadesca, “em todos os níveis hierárquicos das Forças Armadas”, num curso que lhes ensine boas maneiras, mais especificamente um “curso obrigatório e permanente sobre Direitos Humanos”.

Leia você mesmo, caro leitor, com os seus próprios olhos que um dia a terra haverá de engolir:

XII

PUNTOS RESOLUTIVOS

325. Por tanto,

 

LA CORTE

 

DECIDE,

 

por unanimidad:

 

1. Admitir parcialmente la excepción preliminar de falta de competencia temporal interpuesta por el Estado, de conformidad con los párrafos 15 a 19 de la presente Sentencia.

2. Desestimar las restantes excepciones preliminares interpuestas por el Estado, en los términos de los párrafos 26 a 31, 38 a 42 y 46 a 49 de la presente Sentencia.

 

DECLARA,

 

por unanimidad, que:

 

3. Las disposiciones de la Ley de Amnistía brasileña que impiden la investigación y sanción de graves violaciones de derechos humanos son incompatibles con la Convención Americana, carecen de efectos jurídicos y no pueden seguir representando un obstáculo para la investigación de los hechos del presente caso, ni para la identificación y el castigo de los responsables, ni pueden tener igual o similar impacto respecto de otros casos de graves violaciones de derechos humanos consagrados en la Convención Americana ocurridos en Brasil.

4. El Estado es responsable por la desaparición forzada y, por lo tanto, de la violación de los derechos al reconocimiento de la personalidad jurídica, a la vida, a la integridad personal y a la libertad personal, establecidos en los artículos 3, 4, 5 y 7 de la Convención Americana sobre Derechos Humanos, en relación con el artículo 1.1 de dicho instrumento, en perjuicio de las personas indicadas en el párrafo 125 de la presente Sentencia, de conformidad con lo expuesto en los párrafos 101 a 125 de la misma.

5. El Estado ha incumplido la obligación de adecuar su derecho interno a la Convención Americana sobre Derechos Humanos, contenida en su artículo 2, em relación con los artículos 8.1, 25 y 1.1 de la misma, como consecuencia de la interpretación y aplicación que le ha dado a la Ley de Amnistía respecto de graves violaciones de derechos humanos. Asimismo, el Estado es responsable por la violación de los derechos a las garantías judiciales y a la protección judicial previstos en los artículos 8.1 y 25.1 de la Convención Americana sobre Derechos Humanos, en relación con los artículos 1.1 y 2 de dicho instrumento, por la falta de investigación de los hechos del presente caso, así como del juzgamiento y sanción de los responsables, em perjuicio de los familiares de los desaparecidos y de la persona ejecutada indicados em los párrafos 180 y 181 de la presente Sentencia, en los términos de los párrafos 137 a 182 de la misma.

6. El Estado es responsable por la violación del derecho a la libertad de pensamiento y de expresión consagrado en el artículo 13 de la Convención Americana sobre Derechos Humanos, en relación con los artículos 1.1, 8.1 y 25 de dicho instrumento, por la afectación del derecho a buscar y a recibir información, así como del derecho a conocer la verdad de lo ocurrido. Asimismo, el Estado es responsable por la violación de los derechos a las garantías judiciales establecidos en el artículo 8.1 de la Convención Americana en relación con los artículos 1.1 y 13.1 de la misma por exceder el plazo razonable de la Acción Ordinaria, todo lo anterior en perjuicio de los familiares indicados en los párrafos 212, 213 y 225 de la presente Sentencia, de conformidad con lo expuesto en los párrafos 196 a 225 de la misma.



Escrito por Rodrigo às 02h25
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




7. El Estado es responsable por la violación del derecho a la integridad personal, consagrado en el artículo 5.1 de la Convención Americana sobre Derechos Humanos, en relación con el artículo 1.1 de la misma, en perjuicio de los familiares indicados em los párrafos 243 y 244 de la presente Sentencia, de conformidad con lo expuesto em los párrafos 235 a 244 de la misma.

 

Y DISPONE,

 

por unanimidad, que:

 

8. Esta Sentencia constituye per se una forma de reparación.

9. El Estado debe conducir eficazmente, ante la jurisdicción ordinaria, la investigación penal de los hechos del presente caso a fin de esclarecerlos, determinar las correspondientes responsabilidades penales y aplicar efectivamente las sanciones y consecuencias que la ley prevea, de conformidad con lo establecido en los párrafos 256 y 257 de la presente Sentencia.

10. El Estado debe realizar todos los esfuerzos para determinar el paradero de lãs víctimas desaparecidas y, en su caso, identificar y entregar los restos mortales a sus familiares, de conformidad con lo establecido en los párrafos 261 a 263 de la presente Sentencia.

11. El Estado debe brindar el tratamiento médico y psicológico o psiquiátrico que requieran las víctimas y, en su caso, pagar la suma establecida, de conformidad con lo establecido en los párrafos 267 a 269 de la presente Sentencia.

12. El Estado debe realizar las publicaciones dispuestas de conformidad con lo establecido en el párrafo 273 de la presente Sentencia.

13. El Estado debe realizar un acto público de reconocimiento de responsabilidad internacional por los hechos del presente caso, de conformidad con lo establecido em el párrafo 277 de la presente Sentencia.

14. El Estado debe continuar con las acciones desarrolladas en materia de capacitación e implementar, en un plazo razonable, un programa o curso permanente y obligatorio sobre derechos humanos, dirigido a todos los niveles jerárquicos de lãs Fuerzas Armadas, de conformidad con lo establecido en el párrafo 283 de la presente Sentencia.

15. El Estado debe adoptar, en un plazo razonable, las medidas que sean necesarias para tipificar el delito de desaparición forzada de personas de conformidad con los estándares interamericanos, en los términos de lo establecido en el párrafo 287 de la presente Sentencia. Mientras cumple con esta medida, el Estado deberá adoptar todas aquellas acciones que garanticen el efectivo enjuiciamiento y, en su caso, sanción respecto de los hechos constitutivos de desaparición forzada a través de los mecanismos existentes en el derecho interno.

16. El Estado debe continuar desarrollando las iniciativas de búsqueda, sistematización y publicación de toda la información sobre la Guerrilha do Araguaia, así como de la información relativa a violaciones de derechos humanos ocurridas durante el régimen militar, garantizando el acceso a la misma en los términos del párrafo 292 de la presente Sentencia.

17. El Estado debe pagar las cantidades fijadas en los párrafos 304, 311 y 318 de la presente Sentencia, en concepto de indemnización por daño material, por daño inmaterial y por reintegro de costas y gastos, en los términos de los párrafos 302 a 305, 309 a 312 y 316 a 324 de la misma.

18. El Estado debe realizar una convocatoria en, al menos, un periódico de circulación nacional y uno en la región donde ocurrieron los hechos del presente caso, o mediante otra modalidad adecuada, para que, por un período de 24 meses contado a partir de la notificación de la Sentencia, los familiares de las personas indicadas em el párrafo 119 del presente Fallo aporten prueba fehaciente que permita al Estado identificarlos y, en su caso, considerarlos víctimas en los términos de la Ley No. 9.140/95 y de esta Sentencia, en los términos de los párrafos 120 y 252 de la misma.

19. El Estado debe permitir que, por un plazo de seis meses contado a partir de la notificación de la presente Sentencia, los familiares de los señores Francisco Manoel

Chaves, Pedro Matias de Oliveira (“Pedro Carretel”), Hélio Luiz Navarro de Magalhães y Pedro Alexandrino de Oliveira Filho, puedan presentarle, si así lo desean, sus solicitudes de indemnización utilizando los criterios y mecanismos establecidos en el derecho interno por la Ley No. 9.140/95, de conformidad con los términos del párrafo 303 de la presente Sentencia.

20. Los familiares o sus representantes legales presenten al Tribunal, en un plazo de seis meses contado a partir de la notificación de la presente Sentencia, documentación que evidencie que la fecha de fallecimiento de las personas indicadas en los párrafos 181, 213, 225 y 244 es posterior al 10 de diciembre de 1998.

21. La Corte supervisará el cumplimiento íntegro de esta Sentencia, en ejercicio de sus atribuciones y en cumplimiento de sus deberes, conforme a lo establecido en la Convención Americana sobre Derechos Humanos, y dará por concluido el presente caso una vez que el Estado haya dado cabal cumplimiento a lo dispuesto en la misma. Dentro del plazo de un año a partir de su notificación el Estado deberá rendir al Tribunal un informe sobre las medidas adoptadas para darle cumplimiento.

El Juez Roberto de Figueiredo Caldas hizo conocer a la Corte su voto concurrente y

razonado el cual acompaña esta Sentencia.

Redactada en español, en portugués y en inglés, haciendo fe el texto en español, em San José, Costa Rica, el día 24 de noviembre de 2010.

Diego García-Sayán

Presidente”

Leia a íntegra da sentença arrasadora em:

http://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_219_esp.pdf

Eis, caro leitor, o golpe fulminante a toda a mesquinharia que pululou aquele malfadado acórdão do STF sobre o caso – para quem um fictício (espantoso e mentiroso!) consenso geral e irrestrito da Nação foi argumento suficiente (suficiente só para as cabeças dos que o compõem. A prova está aí em cima!) para enterrar, junto daqueles esfarrapados corpos, tudo quanto diga respeito aos Direitos Humanos em questão –, o qual contou, ainda, com a conivência inacreditável do Procurador-Geral da República, autoridade que deveria zelar justamente pelos direitos fundamentais agredidos. Pois ao Mundo resta, agora, escancarada e inescapável, a verdadeira natureza dessas duas instituições do Brasil: uma farsa!

Parabéns à OEA! É bom saber que há juízes em São José da Costa Rica.



Escrito por Rodrigo às 02h24
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




CASAMENTO GAY

Questão de Humanidade

 

 

Manifestantes em frente ao Parlamento argentino, em Buenos Aires. Foto: AP

 

 

No Mundo, mais de 70 (setenta!) países consideram a homossexualidade ilegal. Destes, 33 punem os “criminosos” com penas de prisão, 5 com prisão perpétua e 7 com a morte.

Veja em:

http://en.wikipedia.org/wiki/LGBT_rights_by_country_or_territory

Neste mesmo Mundo, 10 (dez) são os países que reconhecem a humanidade dos homossexuais, e dão-lhes os mesmos direitos consagrados aos demais. O último a fazê-lo foi a Argentina, sim, nossa vizinha, hoje, 15 de julho de 2010, depois de catorze horas de debates no Senado, ao aprovar uma lei que reconhece o direito dessas pessoas de contraírem casamento.

O que deveria ser uma sensaboria, um fato qualquer, neste Mundo vira uma conquista. Algo banal, comezinho, o reconhecimento de um elemento crucial da vida, a vontade de casar-se, de unir-se a alguém, de AMAR alguém, é página de jornal.

É uma vergonha.

É uma vergonha, caro leitor, que tenhamos chegado a este ponto. É uma vergonha, caro leitor, que ainda se debatam tais questões. É uma vergonha, caro leitor, que tenhamos de encarar pessoas que não entendem. É uma vergonha, caro leitor, que pessoas morram por falta de respeito. É uma vergonha, caro leitor, que eu tenha que escrever isso.

Desculpe, caro leitor.

Desculpe pelo Mundo em que vivemos. Desculpe pela intolerância. Desculpe pela insensatez. Desculpe pelo horror. Desculpe pelo ódio. Desculpe pela infâmia.

A civilização tem dez mil anos. Isso não é nada.

A prova está aí.

A maior parte do Mundo ainda tem de ser convencida de que um gay é um ser humano!

Ora, mas que Mundo é esse?

Que diabos de Mundo é esse?

Deus! Tanto se fala em ti, tantos os que oram a ti, que te louvam, que te idolatram, que te veneram... por quê?

Por que, Deus, tanto sofrimento?

Por que, Deus, tanta angústia?

Por que, Deus, tanta dor?

Por que a vida não pode ser simplesmente mais fácil?

Por que não se pode simplesmente amar? Amar sem medo? Amar sem preconceito? Amar sem ódio?

Amar sem culpa?

Por quê?

Será tão difícil aceitar os outros do jeito que são? Não é possível! É absurdo!

Pessoas são obrigadas a superar o Mundo todo para poderem viver. Literalmente!

O suicídio é a primeira causa de morte entre os jovens gays de 15 a 24 anos. As chances de um jovem gay cometer suicídio são, em média, 300% maiores que as de um jovem heterossexual. Enquanto há um jovem gay a cada 10 jovens, de cada 3 suicídios cometidos entre membros dessa faixa etária, 1 é praticado por um homossexual. Acresça-se a esse dado macabro que, de cada suicídio cometido, ao menos cem são tentados (dados de: Massachussets, 2006, “Youth Risk Survey”).

Veja em: http://gaylife.about.com/od/gayteens/a/gaysuicide.htm

Mais em:

http://www.wesleymission.org.au/publications/r&d/suicide.htm

Preciso dizer por quê?

A intolerância mata!

Isso é triste.

Isso é uma tragédia!

Crianças, sim, crianças estão morrendo por pensarem que são monstros!

Isso é um horror!

Mas tenho esperanças. Chegará o dia em que saberemos conviver uns com os outros.

Hoje, a Argentina fez algo pela Humanidade. Avançou um passo rumo à Civilização. Hoje, a Argentina fez com que sentíssemos, de fato, a marcha do progresso.

Parabéns, Argentina!

Obrigado, Argentina.

 

P.S.: se serve de consolo:

“Mesmo em meio às angústias, feliz daquele a quem Deus deu uma alma digna do amor e do infortúnio. Quem não viu as coisas desse mundo e o coração dos homens sob essa dupla claridade, nada viu de verdadeiro e nada sabe” (VICTOR HUGO).



Escrito por Rodrigo às 02h08
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




20 anos sem Cazuza...

No dia 7 de julho de 1990, o Brasil perdia uma lenda: Cazuza, o poeta da rebeldia sem causa, o “Exagerado”!

Jovem a vida toda, essa criatura encheu o coração imenso e carente de uma juventude brasileira que despertava depois de décadas perdidas nas quais, como escreveu Belchior, “o sinal estava fechado pra nós, que somos jovens”. Encarnou, ele mesmo, um prenúncio desolador: um porvir de declínio. Com altiva música, daquelas que já não mais se escrevem no Brasil, Cazuza ditava a nova ordem moral: denunciava, em suas letras, em suas extravagâncias, a terrível sede que nos espezinharia dali em diante, a ponto de enlouquecer-nos: “ideologia, eu quero uma pra viver!”.

Esse homem, se medos tinha, disfarçou-os bem. Acredito, porém, que os perdeu em algum canto da vida, e, como escreveria Aristóteles, aderiu às trincheiras dos temerários. Pra sorte nossa!

Do alto de sua petulância, manjar da rebeldia, antídoto à canalhice, enfrentou a pátria. Num show cuspiu-lhe a flâmula, noutro, cantou: “Brasil, mostra a tua cara”.

Mas, de todas as canções, a mais pungente é aquela em que cantava “o tempo não para”! Ah, Cazuza, seja lá quem foste tu, numa estrofe resumiste a pena maior dos homens.

Como lembrou Tolstoi, “a velhice é a maior surpresa na vida de um homem”. Talvez por isso Victor Hugo escreveu: “O primeiro jovem que aparecer, com sua saúde, com sua força, com seu caminhar ligeiro, com seus olhos brilhantes, seus cabelos negros, seu rosto saudável, seus lábios róseos, seus dentes brancos, seu hálito puro, sempre causará inveja a um velho imperador”. Não que a velhice seja uma pena, aliás, quem sou eu para dizê-lo, e, parando pra pensar, acredito mesmo que seja a melhor fase da vida, aquela em que, perdidas as pretensões, mais sábios desgarramo-nos dos ímpetos e deleitamo-nos, no fim das coisas, com o que realmente importa. Mas é uma pena saber que, algum dia, cedo ou tarde, de uma forma ou de outra, perderemos, todos nós, não só a vida que nos embala, mas a juventude que tanto nos seduz.

Como nos seduziste, Cazuza, com tua juventude sempiterna! Cara, eu desejo, do fundo de meu coração, que as tuas músicas nunca morram, que elas vivam eternamente, transmitindo, em alto e bom som, aquilo que sempre nos disseste, que não há, nem nunca haverá, ideologia maior e mais fabulosa que o Amor. Haja o que houver, amemos muito. Amemos sempre. Com todas as nossas forças. Amém.



Escrito por Rodrigo às 22h45
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




ADEUS, SARAMAGO...

 

 

Quisera ter, homem, teu domínio do vernáculo pra dirigir-te as palavras certas, mas, na minha santa ignorância, endereço-te as parcas que tenho, espero que sirvam. Logo agora, quando estávamos, todos nós, a pensar que o Mundo nos daria um tempo, que as desgraças podiam ser amenizadas com um tanto de esporte, um quanto de alegria, vem Deus com sua mão enorme a mostrar-nos, uma vez mais, que a vida não é nada. Rouba-nos a ilusão, leva de nós um pouco do que nos resta, e assim, a cada dia, choramos mais pelas perdas, essas bandidas sedentas, Ele sabe, se os rios têm por nascente um fiozinho de água doce, a fonte salobra dos oceanos são as lágrimas que derramamos, e é bem por isso que eles não secam. Hoje, danados de nós, encheram um pouco mais, e nenhuma lágrima haverá que valha a luz com que nos encheste.

Como escreveste no Evangelho..., "Nada existe que não tenha de acabar, tudo o que existe nasce do que acabou". Saramago, obrigado por teres existido! Descansa em paz.



Escrito por Rodrigo às 20h44
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




LUTO

Entidade protegida pelo STF

É chegada a hora, caro leitor!

Enfim, o Supremo Tribunal Federal do Brasil conseguiu o que buscava desde sempre: uma decisão que será lembrada por mil anos.

Hoje, 29 de abril de 2010, o Mundo assistiu, estarrecido, a uma infâmia triplicada.

Se Franklin Delano Roosevelt estivesse vivo, certamente repetiria sua célebre frase: “Um dia que entrará para a infâmia”.

Explico.

O primeiro golpe foi dado com a absolvição sumária dos torturadores da Ditadura Militar dos anos 1964-1985 (de antemão, sem nem mesmo ter havido uma Denúncia sequer).

O segundo golpe, sangrento, foi perpetrado com o envio de abutres às famílias dos até hoje desaparecidos políticos para sinalizar que o assassinato de seus filhos não serviu para nada, a não ser encher a goela dessas aves (abutres, leia-se, os torturadores absolvidos de antemão).

O terceiro, e talvez mais inacreditável, dos golpes da infâmia 3 em 1 é que toda essa barbaridade foi cometida por juízes togados, a quem incumbe, precisamente, proteger as pessoas da infâmia.

Leitor, esqueça-te de tudo o que já ouviste sobre Direito.

É hora de encararmos a verdade, de uma vez!

Direito é, antes de tudo, discurso.

Discurso é linguagem.

Linguagem é o instrumento de que os homens fazem uso para comunicarem-se uns com os outros.

A linguagem, caro leitor, serve para qualquer coisa.

Todas as mais perversas barbaridades já cometidas na história tiveram o respaldo da linguagem.

Os nazistas, ao promoverem o holocausto, tiveram seus argumentos.

Os soviéticos, ao construírem seus gulags, tiveram seus argumentos.

Os americanos, ao lançarem as bombas atômicas, tiveram seus argumentos.

Os brasileiros, ao mantermos, até o último minuto, a escravidão dos negros, tínhamos os nossos argumentos.

Herodes, quando mandou perseguir e matar as crianças de Belém, tinha seus argumentos.

Agora, o STF, ao absolver, de antemão, os torturadores do Ancien Régime tupiniquim, também tem seus argumentos.

Enfim, ter argumento não é sinônimo de ter razão.

O STF, ao bloquear a revisão da malfadada Lei de Anistia, fez uso de um arquitetônico esquema argumentativo, baseado em tudo o que se possa imaginar, para enviar às favas a Humanidade e não se comprometer com certos setores (principalmente aqueles minimamente ligados à defesa dos Direitos Humanos, para quem a Corte não está nem aí).

Tudo o que se disse, obviamente, tem respaldo jurídico e, antes de tudo, linguístico.

Mas, caro leitor, nesses momentos de estupefação, temos que ter coragem.

Coragem para enfrentar a dura verdade.

Como disse Arthur Kirkland (personagem interpretado por Al Pacino) numa das mais famosas sequências do cinema, no filme “Justiça para Todos”: “And what’s the truth today?” – E qual é a verdade hoje?

A verdade, caro leitor, e eis tudo, é o que se encontra por trás de todo o discurso floreado que foi bradado por aqueles senhores togados.

É a escolha.

Leitor, se me deres um minuto a mais de tua paciência, abrirei, aqui, um breve parêntese.

Slavoj Zizek, filósofo esloveno, numa de suas famosas (e espirituosas) conferências no site YouTube, fala da ideologia nos dias atuais. Faço remissão a ela porque, além de divertida, serve bem pra que eu diga o que quero dizer.

Assista em: http://www.youtube.com/watch?v=_x0eyNkNpL0

Dizia ele que Donald Rumsfeld, Secretário de Estado dos EEUU no (desastrado) Governo W. Bush, “argumentava”, numa entrevista coletiva, para justificar a Guerra do Iraque, basicamente, isto: há coisas que nós sabemos que nós sabemos (the “known knowns”), como, por exemplo, que Saddam Hussein é (era) o capo do Iraque; há coisas que nós sabemos que não sabemos (the “known unknowns”), como, por exemplo, nós sabemos (sabíamos) que não sabemos (sabíamos) quantas são (eram) e onde estão (estavam) as armas de destruição em massa (na época, persistia a dúvida, sanada anos depois com a comprovação cabal de que o Iraque não tem e nunca teve arma de destruição em massa nenhuma); e, enfim, há coisas que nós nem mesmo sabemos que não sabemos (the “unknown unknowns”), como, por exemplo, não sabemos (sabíamos) que não sabemos que Saddam (na eventualidade de ter) tinha armas de natureza ainda mais destrutiva das que até então eram conjeturadas. Isto tudo para dizer que a guerra era necessária para que nos defendêssemos das coisas que não sabíamos que não sabíamos, e que, de qualquer modo, somente viríamos a saber depois de tirarmos Saddam de onde estava (Planeta Terra).

Zizek, então, diz-nos que Rumsfeld, conscientemente ou não, se esqueceu de mencionar o “quarto elemento”: as coisas que nós não sabemos que sabemos (the “unknown knowns”). Aí, neste elemento, está a grande questão.

Em determinado ponto, ele faz alusão a um filme de John Carpenter, “They Live”, em que um homem ordinário (originalmente chamado de “Nada” no filme) tem em seu poder um par de óculos com os quais consegue enxergar a mensagem que jaz por trás do que ele vê (a verdade que ele não sabe que sabe). Exemplificando, quando ele se depara com um outdoor anunciando um produto qualquer e enaltecendo suas qualidades, ao pôr os óculos ele vê “consumidor, não pense, simplesmente consuma, etc.”, ou, ao deparar-se com um cartaz numa rede de fast food com uma criança faminta, dizendo “compre nosso hambúrguer e ajude essa criança a comer”, ele vê “esqueça-se das razões pelas quais essa criança tem fome, simplesmente pague o hambúrguer, livre-se dela e compre sua consciência”.

Bom, dita esta breve, frívola e inspiradora passagem (eu gostaria de falar, também, da teoria sobre as privadas europeias, mas não quero me alongar muito – assista ao vídeo), voltemos ao STF.

O que, afinal, Nada veria se lesse esta decisão do STF com seus óculos especiais?

Resposta: a MORTE.

Que uma coisa fique clara: o juiz, na sua atividade judicante, nada mais faz que escolher. Há, em todo caso, sempre, no mínimo, dois caminhos a seguir. Os argumentos são-lhe dados. Basta fazer a escolha.

Havia, aqui, dois caminhos muito claros: o da Vida, consistente na Revisão da Lei da Anistia e na permissibilidade de se investigar e condenar os perpetradores deste crime contra a Humanidade (ou seja, o caminho da condenação da tortura em si); e o da Morte, como fez Pilatos ao lavar as mãos (não só com água, mas, principalmente, com o sangue de Cristo).

Os ministros do STF, o que fizeram? Escolheram o caminho da Morte.

Por trás do acórdão que será lavrado, jaz a mensagem: MATEM!

Matem, porque, nestas terras, a vida não vale nada. Torturem, mas torturem mesmo, pois, aqui, e só aqui – nessa terra “privilegiada”, com juízes “privilegiados” –, se pode anistiar a tortura.

O corpo humano, no Brasil, segundo o Egrégio Supremo Tribunal Federal, não vale nada! Pode ser reduzido a escombros pela atividade de torturadores, pois até mesmo a tortura encontrará relativização pelos discursos angelicais do STF.

Por isto, essa decisão paradigmática, fulcrada em argumentos que mesclam covardia e perversão, será lembrada pela Humanidade por mil anos. Eis um momento em que um “Grupo de Notáveis” escolheu a Morte, teve a petulância de ditar essa escolha numa decisão judicial e abandonou qualquer resquício de vergonha ao querer empurrar-nos isto goela abaixo como se fosse a “Salvação da Humanidade”. E tamanha é a mediocridade que os ministros, esses seres “iluminados”, apesar da coragem em burilar, em letras garrafais, no Diário Oficial, a escolha pela Morte, não têm coragem de assumi-la, dizendo aquelas últimas amenidades estapafúrdias (argumentos) em sua tentativa vã e desprezível de fugir da responsabilidade: “anistiamos os torturadores, mas isso não quer dizer que concordemos ou nos esqueçamos da tortura em si”.

Ora, senhores ministros, eu sei que é difícil, especialmente em suas posições, mas sejam Homens ao menos uma vez em suas vidas: assumam! Quer dizer que concordam e se esquecem da tortura Sim! Enterram com pá de cal os torturados e fecham a questão com um baita “deixa estar”.

Eles fingem que acreditam no amontoado de argumentos nos quais embasaram sua decisão (não nos esqueçamos, argumento há pra tudo), fingem que mantêm seu status de “guardiões” da Constituição Federal e da Democracia brasileira, e o povo brasileiro finge que acredita que isso é verdade.

Há quem diga que seria de Goebbels aquela frase: “uma mentira contada mil vezes vira uma verdade”. Pois é. Ainda bem que os nossos ministros do STF não estavam em Nuremberg...

 

P.S.: como este blog pretende ser o “endereço da verdade” na “pátria da mentira”, ao menos essa decisão serviu-nos de uma coisa: chega de fingimentos. A partir de agora, aqui não mais se verá qualquer compromisso com o resguardo da moral do STF. Ela esvaiu-se, inteiramente, nesta decisão escandalosa.



Escrito por Rodrigo às 04h45
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Recomendo...

 

O filme “Amores Brutos” (do original “Amores Perros”, algo como “amores caninos”), de Alejandro Gonzáles Iñárritu.

Conta o entrelaçamento violento e inesperado de alguns destinos paralelos que se unem num acidente de trânsito nas ruas da Cidade do México, todos focados de maneira a realçar sua profundidade, comunicando-se uns com os outros por um singelo ponto em comum: a afeição que as personagens sustinham por seus cães.

Filme muito bom! É uma espécie de Babel do cinema mexicano, que está, diga-se, anos-luz à frente do brasileiro.

Aliás, como muito bem lembrado por um cara fantástico, o Diego, esse filme faz parte, justamente, de uma trilogia do Iñárritu de que fazem parte, ainda, os filmes "21 Gramas" e "Babel". Vale a pena conferir.

 



Escrito por Rodrigo às 22h12
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




NARDONI

A Tragédia Anunciada

 

Os "justiceiros" do Brasil!

 

...mais "justiceiros" do Brasil...

 

O "grande" Promotor de Justiça do caso (sob os efeitos que a vaidade consegue sobre sua alma) que fomentou, com entrevistas e acenos, a imprensa tupiniquim

e os nervos dos "justiceiros": estamos bem de Promotores!

 

No fim, o povo vibra!

Viva o Brasil!

Finalmente, depois de meses de sensacionalismo e de uma barbárie sem limites e comparativos, a imprensa brasileira – definitivamente um caso de polícia – conseguiu oficializar a condenação do casal Nardoni.

O povo, em polvorosa, às portas do tribunal, parecia, ao som dos “jornalistas” (rectius, julgadores performáticos), um rebanho que ia e vinha ao som do berrante. A cada manchete, a cada imagem, a cada depoimento, a cada flash, zoom e sequência das câmeras daqueles pervertidos, ouviam-se os choros, apupos e aplausos da multidão. A cada opinião “balizada” dos “repórteres” do Brasil – motivo de riso e motejo entre a mais absoluta totalidade dos repórteres (e da audiência, diga-se) dos países civilizados -, o gado se agitava como a maré ao sabor de uma tempestade: chifravam, coiceavam e mugiam como bem fazem as cavalgaduras que seu tempo perdem em dar a mínima importância para o que é excretado pelos veículos de comunicação desse País miserável em cultura e dignidade.

Recuso-me, veementemente, a analisar o mérito do caso. A bem da verdade, tamanho foi meu repúdio pela forma com que os “jornalistas” brasileiros o cobriram que nem sei ao certo o que sucedeu. Mas, de qualquer forma, seja o que for, com toda a certeza não foi o que está escrito na sentença, lavrada e prensada pelos “repórteres” com o suor, a baba e os carrapatos daquela multidão bovina.

Esse texto é somente um desabafo pelo fato de eu ser obrigado a ler a condenação do casal Nardoni como manchete no sítio eletrônico da Folha de São Paulo (escrita com letras garrafais num espaço digno de um momento histórico retratado pelos “jornais”), que, entre os panfletos tupiniquins, é dos poucos que leio de quando em quando.

É pra acabar!

A pergunta (verdadeiramente desconcertante) que fica no ar é a seguinte: com essa espécie vil de gente (que é capaz de tudo, repito, TUDO para ganhar dinheiro e audiência) no comando da imprensa brasileira, como podemos nós, homens dotados de cérebro, confiar em qualquer julgamento/análise/opinião por ela publicados?

P.S.: antes de eu publicar esse texto, ainda consegui ler duas das manchetes da FSP: “Alexandre Nardoni poderá passar o dia fora da prisão em 2020” e “Anna Carolina Jatobá poderá passar o dia fora da prisão em 2018”, como se o fato de essas duas criaturas passarem um único dia fora da prisão fosse o último pecado humano antes do Apocalipse.

É pra acabar – II!



Escrito por Rodrigo às 03h50
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 
Meu perfil
BRASIL, Sul, BALNEARIO CAMBORIU, Homem, de 26 a 35 anos
Histórico
Categorias
  Todas as Categorias
  Autor
  Regras de Uso
Outros sites
  UOL - O melhor conteúdo
  BOL - E-mail grátis
  Folha de São Paulo
  Carta Capital
  Caros Amigos
  Le Monde Diplomatique Brasil
  The New York Times
  The Guardian
  El País
  Conversa Afiada - blog do Paulo Henrique Amorim
  Caso Veja - blog do Nassif
  Vi o Mundo - blog do Luiz Carlos Azenha
  Blog do Mino
  Blog do Gerald Thomas
  Náufrago da Utopia
  Observatório da Imprensa
  Direto da Redação