Na pátria da Mentira, o endereço da Verdade!


MACHUCA

Fogem-me as palavras, mas escrevo. Mais uma vez, choro ao término de um filme. Que tristeza! Que desalento! E mais uma vez, a certeza de que a vida humana é tão rica, e de que somos, ao mesmo tempo, tão miseráveis. Quantas perdas inestimáveis a vida nos traz? Quantas lágrimas faz brotar de nossos olhos assim, de forma tão simples, sem nem fazer força? Quantas vezes nos parte o coração com sua avareza sem limite? Nas “Intermitências da Morte”, Saramago, numa de suas frases tão iluminadas, escreveu: “É assim a vida, vai dando com uma mão até que chega o dia em que tira tudo com a outra”.

 

Pena. Muita pena. É isso o que hoje sinto. E não só hoje, é isso o que venho sentindo há algum tempo, fruto de uma desilusão e de uma saudade. Desilusão por saber, como canta o musical, que “I had a dream my life would be / so different from this hell I’m living / So different now from what it seemed / Now life has killed the dream I dreamed”. Saudade de tempos em que a pena era distante, muito provavelmente pela inocência já perdida.

Este estado em que me encontro, tão perene, tão insistente, leva-me a uma incompreensão insuportável. Não entendo mais. Que mundo é esse? Que Humanidade é essa? IPhones, IPads, Facebook, enquanto há gente morrendo de fome do outro lado da rua. “O horror, o horror”, escreveu Konrad. Ele vive aqui, pertinho de nós, e nada fazemos. Pertinho de mim, e o que faço? Oras, reduzo-me à figura pedante do que escreve... tolices! Barbaridades mostradas no Google com toda a sordidez de detalhes, ao lado das fotos hackeadas de atrizes nuas. Indignados perdidos ocupam Wall Street sem reivindicações claras, enquanto na Síria oito mil pessoas são mortas a machadadas. Os gregos votam em neonazistas para sair de uma crise sem tamanho, enquanto um maníaco mata a queima-roupa quase oitenta jovens indefesos numa ilha da Noruega. O papa felicita Hollande por sua eleição pregando que “respeite a vida”, em alusão à sua posição em favor da eutanásia, enquanto se encontra o cadáver de um mafioso nas tumbas da Basílica de Santo Apolinário, destinada a guarnecer os ataúdes de cardeais e Sumos Pontífices. Quanto mais leio, quanto mais me dou conta, mais fico enojado, mais emudeço, menos compreendo.

Por isso dei um tempo. Parei de escrever. Nesse mundo insano, escreve-se demais. Há bobagens demais. Há desonra demais. Imbecilidade demais. Esse texto provavelmente seja só mais uma.

Hoje estou triste. Essa tristeza que me abala faz-me lembrar de uma sextina de Camões, que transcrevo abaixo pra fechar com chave de ouro esse lamento:

 

Foge-me, pouco a pouco, a curta vida,
Se por caso é verdade que inda vivo;
Vai-se-me o breve tempo de ante os olhos;
Choro pelo passado; e, enquanto falo,
Se me passam os dias passo a passo.
Vai-se-me, enfim, a idade e fica a pena.

Que maneira tão áspera de pena!
Pois nunca uma hora viu tão longa vida
Em que possa do mal mover-se um passo.
Que mais me monta ser morto que vivo?
Para que choro? Enfim, para que falo?
Se lograr-me não pude de meus olhos?

Ó fermosos, gentis e claros olhos,
Cuja ausência me move a tanta pena
Quanta se não compreende enquanto falo!
Se, no fim de tão longa e curta vida,
De vós me inda inflamasse o raio vivo,
Por bem teria tudo quanto passo.

Mas bem sei que primeiro o extremo passo
Me há de vir a cerrar os tristes olhos,
Que Amor me mostre aqueles por que vivo.
Testemunhas serão a tinta e pena,
Que escreverão de tão molesta vida
O menos que passei, e o mais que falo.

Oh! que não sei que escrevo, nem que falo!
Que se de um pensamento noutro passo,
Vejo tão triste gênero de vida
Que, se lhe não valerem tanto os olhos,
Não posso imaginar qual seja a pena
Que traslade esta pena com que vivo.

Na alma tenho um contínuo fogo vivo,
Que, se não respirasse no que falo,
Estaria já feita cinza a pena;
Mas, sobre a maior dor que sofro e passo,
Me temperam as lágrimas dos olhos;
Com que, fugindo, não se acaba a vida.

Morrendo estou na vida, e em morte vivo;
Vejo sem olhos, e sem língua falo;
E juntamente passo glória e pena.



Escrito por Rodrigo às 01h42
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