Na pátria da Mentira, o endereço da Verdade!


 

RECOMENDO

Baseado no romance homônimo de Don DeLillo, “Cosmópolis”, de David Cronenberg, com Robert Pattinson (contra o qual alimentava um certo preconceito, confesso, por sua atuação – por mim ainda não sujeita a admiração – naquela a meu ver muito famigerada saga “Crepúsculo”), Juliette Binoche, Paul Giamatti, Samantha Morton, entre outros. Um investidor bem-sucedido percorre as ruas de Nova Iorque em sua limusine para cortar o cabelo. No percurso, sua vida sofre uma imensa reviravolta.

Cosmópolis : poster

O roteiro é muito bom. Destaque para um diálogo mantido entre o protagonista e sua “consultora de teorias” em meio a uma manifestação de rua na qual sua limusine é pichada por detratores do capitalismo (não faço aqui julgamento moral algum das palavras abaixo escritas):

“Você precisa entender que quanto mais visionária é a ideia, mais pessoas são deixadas para trás. Esse é o motivo do protesto. Visões de tecnologia e riqueza. A força do cibercapital que mandará as pessoas para a sarjeta e morte. Qual é a falha da racionalidade humana? Ela finge não ver o horror e a morte causados pelos seus esquemas. Isto é um protesto contra o futuro. Eles querem bloquear o futuro. Querem normalizá-lo, impedir que esmague o presente. O futuro é sempre uma totalidade, uma uniformidade. Somos todos altos e felizes nele. Por isso o futuro fracassa. Jamais pode ser o lugar cruel e feliz que queremos criar. Sabe o que os anarquistas dizem?

- O impulso da destruição é criativo.

- É também o lema do pensamento capitalista. Destruição forçada. Velhas indústrias precisam ser eliminadas. Novos mercados precisam ser abertos. E antigos mercados precisam ser reexplorados. Destruir o passado, fazer o futuro”.

Veja o trailer em http://youtu.be/kc0vvUB-q5Q?hd=1

Não sei se foi o filme em si, mas enquanto lhe assistia sobreveio-me um poderoso insight sobre uma história que estou escrevendo e que, quem sabe, algum dia virará livro. A ideia surgida foi tão perturbadora e chocante que tive medo de mim mesmo, e pergunto-me agora se acaso não estou mesmo ficando louco. Já escrevi qualquer coisa, num passado não tão remoto, sobre inocência e altivos sentimentos, mas agora escrevo sobre as trevas da sociedade humana, a marginalidade e a abjeção completas descritas num drama pungente e visceral a que tento dar corpo, mas quanto mais penso nele mais dele tenho medo. Afinal, escrever sobre algo é envolver-se com esse algo, procurar entender aflições, fantasmas, agruras, taras e credos imbrincados na natureza humana e contra os quais a Humanidade emprega, a muito custo, toda a Civilização para esmagá-los, por ora sem sucesso. Esses caminhos obscuros, escamoteados, nefastos, medrados em meio aos esgotos das cidades albergam tudo aquilo que a Civilização não conseguiu extinguir, apesar de todos os milênios de esforços infelizmente em vão. É um desafio a que me lanço, sem qualquer previsão de sucesso.  



Escrito por Rodrigo às 02h01
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RECOMENDO

Caro e fiel leitor, como já deves ter percebido estou fechado pra balanço. Esse período em que me calo é uma quarentena que impus a mim mesmo como uma tentativa de desintoxicar-me. A verdade é que, se já antes eu não escrevia nada de lá muito relevante, nestes últimos anos, então, não tive condições de escrever nada, porque meu destino tomou rumos tão inescrutáveis que precisava compreender certos eventos, especialmente aqueles nos quais os limites da indignidade são superados.

Na busca pela compreensão de tão sombrios aspectos da vida humana, tenho procurado observar o Mundo. Às vezes penso entendê-lo cada vez menos, apesar dos meus esforços em sentido contrário.

Incêndios : foto

Essas palavras são necessárias pra contextualizar o que segue. Recomendarei, neste post, dois filmes viscerais, impactantes, ferozmente chocantes, que retratam, com uma crueldade particularmente assombrosa, seja pelo horror das sagas, seja pela estética vibrante, quão frágil é a natureza humana diante do insuportável peso que pode assumir o destino. Assisti-lhes com o espírito aberto, como deve fazer qualquer um que se coloque diante de obras desse tipo, perturbadoras e dilacerantes, e se os recomendo é porque me abalaram a ponto de crer que tiveram uma importância que não consigo aferir de todo nas minhas buscas por respostas aos dilemas a que me propus. Na verdade, e eis tudo, creio que nenhuma dessas obras, como ademais nenhuma outra que já tenha admirado, me trouxe jamais qualquer resposta, mas apenas novas perguntas. E provavelmente seja esse o caráter desconcertante do fugaz e tortuoso caminhar humano: encontrar pelo caminho mais e mais perguntas, mas jamais se deparar com respostas satisfatórias.

Old Boy : foto

Essa peregrinação de dor que tenho percorrido sugere-me que o segredo está em encontrar a paz de espírito na convivência tão harmoniosa quanto possível com as perguntas mais aflitivas sem esperar por respostas que nos aliviem. Tanta incompreensão tem me levado a acreditar que, de fato, talvez ela, precisamente a incompreensão, seja tão fatídica e inescapável que mais feliz é o homem que melhor aceita o fato de não conseguir compreender o Mundo do que aquele que, em sua ânsia de entendê-lo, enlouquece em busca da solução dos maiores enigmas.

Incêndios : foto

Bom, o primeiro filme que recomendarei neste post é um sul-coreano que descobri há pouco tempo. Chama-se “Old Boy”, de Park Chan-Wook.

Old Boy : foto

Este filme, vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2004, de uma violência espetacular, começa mostrando a aflição de um indivíduo aparentemente bêbado preso na sala de espera de uma delegacia. Depois de jogar-se durante horas contra as paredes, contra o chão e contra os policiais em tentativas enlouquecidas de sair de lá, um amigo seu chega para soltá-lo, ao que tudo indica depois de pagar a devida fiança. Na rua, liga para a esposa de um telefone público e subitamente desaparece, indo parar numa cela com uma cama, um banheiro e uma televisão, onde ficará por longos quinze anos. Verá formigas brotando de suas veias, espancará com os punhos as paredes do lugar, ver-se-á dominar, diariamente, por gases soníferos lançados de tubulações escamoteadas pelas paredes instransponíveis do lugar. Passados esses quinze anos intermináveis, o homem é solto no terraço de um prédio, sem entender porquê. Finalmente, descobrirá ter apenas cinco dias para descobrir o motivo de ter sido mantido em cárcere privado por tanto tempo e vingar-se de seus algozes.

Old Boy : foto

O protagonista, vivido por Choi Min-Sik, tem uma atuação ferozmente intensa, e a estética do filme é extraordinária. O diretor fez tomadas incríveis. Há cenas tão brutais que por vezes o filme fica intragável, como quando o homem, num restaurante japonês, abocanha um polvo vivo enquanto os tentáculos do bicho movem-se desesperadamente pela sua cara. Mas a história vale a pena. O final é particularmente perturbador.

 

O segundo filme que recomendarei é provavelmente o mais chocante que já vi. A temática é similar à do filme anterior, mas se o filme coreano ganha em violência, este filme canadense indicado ao Oscar® de melhor filme estrangeiro ganha em percuciência. “Incêndios”, de Denis Villeneuve, inicia com dois irmãos gêmeos sentados diante de um notário ouvindo a leitura do testamento de sua recém-falecida mãe. Ouvem que ela quer ser enterrada nua, de costas e sem lápide alguma, e incumbe os filhos de entregar duas cartas: uma a seu pai (que acreditavam encontrar-se morto), e outra a seu irmão (cuja existência só conheceram a partir desse testamento). Para encontrar o pai e o irmão até então ignorado, eles começam uma peregrinação arrebatadora por uma desconhecida e devastadora história de sua mãe na Palestina.

Incêndios : poster

Assisti a este segundo filme há algum tempo, e lembro-me bem que ao final não sabia o que pensar nem o que sentir. Só sei que nunca mais fui o mesmo.

Incêndios : foto

Duas obras para quem tem estômago, sem dúvida, mas ambas com um poder incrível para estremecer nossos corações.

 

P.S.: recebi, nos últimos tempos, alguns pedidos de fiéis e muito generosos leitores para escrever sobre o nosso tempo, e sobre os eventos que nos cercam e que desafiam nossas mentes modestas e no mais das vezes superficiais para entender a complexidade da vida e do Mundo. Agradeço esses gestos de confiança e fidúcia, mas minhas opiniões têm vivido tão constante e profunda mudança que nem sei mais no que pensar. Na medida do possível retomarei meus textos, por ora, ao menos penso, com mais ênfase na arte, que decididamente é o que nos resta em tempos de total incompreensão. 

 



Escrito por Rodrigo às 02h34
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BRASIL, Sul, BALNEARIO CAMBORIU, Homem, de 26 a 35 anos
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